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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Más notícias e criaturas da função pública.


Sou pessoa metódica, de hábitos ligeiramente sensaborões, que gosta de estar no seu canto, fazer o que o dever incute e pensar apenas nas coisas agradáveis que a vida pode oferecer. Ora tudo o que implique chatices e aborrecimentos de maior, mexe-me com o sistema, não há nada a fazer. A maçada do dia foi verificar que o meu contador da água tinha sido removido, pelos excelentíssimos senhores da Câmara Municipal, porque, veja-se o disparate, alegam que não paguei a conta de Dezembro. Ora mais uma carta de inutilidade que estas criaturas da função pública tiram assim à desgarrada. É óbvio que tenho os recibos e, mesmo assim, passar pela maçada de ir à Câmara, vulgo antro de tontos, tratar de colocar tamanhas alarvidades no devido lugar, era algo que dispensava com prazer inestimável. 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Breve constatação do dia.


Não há, com certeza, mulher cujo berço seja humilde e despretensioso, que tenha menos parcimónia para limpezas e arrumações do que eu. Bem sei que não é motivo de orgulho e deixa-me deveras irritada, mas não me consigo organizar. Tivesse eu dinheiro e reformulava esta casa à minha medida, com móveis clean, até ao tecto para poupar espaço, apenas o essencial, sem bugigangas e porcarias desse género, sem móveis rendilhados, sem as talhas, sem toda esta maçada. Para uma senhora como eu, quanto menos, melhor. Definitivamente. 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sempre a deixar o de hoje para amanhã.

Tantas certezas tenho das minhas virtudes como dos meus defeitos mais profundos. Um deles é a mania desesperante e cansativa de colocar em segundo lugar as coisas importantes, aquela burocracia de gaveta. Chateiam-me por demais essas questões. Claro que ninguém gosta, como é óbvio, mas eu nasci com um gene qualquer que me dificulta a agilidade para resolver certos assuntos. A ver vamos se consigo alterar essa maçada e colocar as ideias em ordem. 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Má vizinhança.


Julliete Lewis em The 4th floor, de Josh Klausner.

Já não é de hoje que tenho conhecimento do tipo de pessoas que habitam o prédio onde vivo. Maioritariamente indivíduos de baixa instrução, gente rude, com jeitos e manias do português falido. Também há gente de bem. Um casal simpático no primeiro andar - uma senhora de falas elegantes e um senhor muito polido -, mas fica-se por aí. 
Ultimamente, o vizinho de baixo, incitado pela neurose e histeria da esposa, maça-me com assuntos pequenos e enfadonhos, do género ouvi-mo-la falar durante a noite, o volume da televisão está alto, evite usar o autoclismo (a sério?) e outros disparates de dimensão anedótica.
Ora está uma senhora descansada na sua vida, com os dois gatos e a cadela, sem ter até com quem conversar, usando de um quotidiano totalmente natural, sem disparates e embirrices à mistura, e leva com a boçalidade. Não há pachorra. No entanto, o que me exalta os nervos é o facto de saber que a senhora do andar de baixo tem dado um uso muito pouco nobre ao buraquinho da fechadura e escrutina a minha rotina. O marido, no alto da sua insignificância brejeira, teve o desplante de vociferar que havia chegado às tantas horas da noite, que usei saltos ao subir as escadas do prédio, que até me descalcei à porta, mas que acordei a senhora psicótica que divide a casa consigo. Para o que eu haveria de estar reservada, caros leitores. 
Vai daí, é impossível não me lembrar do The 4th floor, de Josh Klausner, eu, pois claro na pele de Julliete Lewis e os meus estimadíssimos vizinhos do andar de baixo na pele de, façamos figas, algo menos assustador do que o psicopata das múmias. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Maçada da noite.

Está uma senhora deitada, em dor agonizante de enxaqueca, e ouve um estrondo vindo da cozinha. O chão alagado, um barulho ensurdecedor como o centrifugar de uma máquina de lavar roupa e uma boa hora e meia a limpar tudo. Água desligada, banho adiado, as dores cá estão e eu continuo a pensar numa forma de contornar as coisas. Em alturas como estas, pergunto-me se morar sozinha é de facto o apogeu da liberdade feminina. Agora fazia-me falta um cavalheiro dotado de capacidades para a bricolage. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Questões kármicas.

Excerto da ilustração de Botticelli para a Divina Comédia de Dante
Todos os seres vivos, desde os mais elementares, à sua manifestação mais completa, passam por etapas de vida. Não é fácil, no entanto, entendermos estas últimas de bom grado, quando se fecham portas que consideravam ser do Paraíso e nos abrem as janelas do Purgatório. Costuma-se dizer, em boa sabedoria popular, que nada acontece por acaso. E se já não chego ao cúmulo de citar a fastidiosa se a vida lhe dá limões, pois faça-se uma limonada, que considero abusiva e ultrajante em determinadas etapas da vida, pois que aprendamos, pelo menos, com os tropeços e façamos deles aliados futuros.
Às vezes, é necessário limpar o armário, deitar fora as coisas bolorentas, desparasitar a dispensa, pôr as coisas no seu devido lugar. Não olhemos para isso como lesivo. Olhemos sim como um bom amigo me costuma dizer, o encerramento de uma etapa menos boa para que ventos auspiciosos possam soprar pelas nossas bandas.
Quando, instintivamente, sabemos que é a favor da evolução pessoal, abrace-se então o maldito karma e faça-se dele um aliado. Por muito que toda esta discussão pareça disparatada, levada sob efeito de algum tranquilizante, quem ainda não passou por uma revolução pessoal, lá chegará e entenderá que seremos sempre bem melhores do que aquilo que fomos no dia anterior, se a estupidez não se acercar da massa encefálica.