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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Como a Harpers desmistificou o estilo de vida de Carrie Bradshaw

A Harpersbazaar escreveu há uns tempos um artigo deveras interessante e inócuo sobre o fenómeno The Sex and the City, que marcou a minha geração e os mundo da televisão no final do milénio. 
Já por aqui escrevi que Carrie Bradshaw sempre representou, para mim, o arquétipo da mulherzinha fútil, que acha que tudo lhe é devido, sem respeito pela sua condição, chatinha e peganhenta. Mas o facto é que a série viveu através dos seus relatos, mas alimentou-se de personagens muito mais interessantes e sensatas, pelo que a Carrie, para mim, sempre foi muito mais um acessório da trama do que a sua alma. 
Voltanto ao artigo da Harpers, que coloca em causa o estilo de vida, ligeiramente opulento, de Carrie Bradshaw numa das cidades mais caras do mundo, lê-se: 
1) "It´s so easy to meet men in New York!"


Dentro daquilo que conheço da humanidade, parece-me que a série peca realmente por excesso. Primeiro porque fisicamente a personagem não é tão atraente como a querem vender; em segundo, Carrie Bradshaw não é uma mulher particularmente interessante, cheia de intelectualidade e ternura, capaz de arrebatar o coração de qualquer cavalheiro; por último, embora considere que qualquer mulher é capaz de encontrar nem que seja um camafeu para um encontro romântico, é preciso gastar tempo e energia, elementos que uma mulher que trabalhe, com contas para pagar, não terá em abundância. No entanto, poderia dar o benefício da dúvida e afirmar: não senhora, uma mulher, por mais tontinha que seja, quando se dispõe para a conquista e mantém as exigências baixas, consegue sempre qualquer coisinha. 
2) "You'll be totally fine if you decide to spend your paycheck on shoes instead of rent."


Ora aqui é que já não há muito em que pensar. Ora vejamos: qualquer pessoa que tenha acompanhado a série sabe que o background familiar da Carrie se manteve sempre em segredo. Mais tarde, foi para o ar uma série sobre a sua juventude, o que descortinou algumas dúvidas, mas isso para aqui também não seria chamado. Ou seja, para todos os efeitos, Carrie Bradshaw não é descendente de nenhum magnata nem teve uma educação de luxo, algo que se percebe pelos seus modos algo torpes, que denunciam uma rapariga, quanto muito de classe média, sem grandes regras familiares, que gosta de beber e de fumar como um homem e de conquistas de uma noite. 
Isto tudo para chegar à conclusão que se Carrie realmente não tinha um rendimento extra, seria impensável gastar pequenas fortunas em sapatos regularmente, pagar um apartamento na zona mais cobiçada de Nova Iorque e ainda ter orçamento para noitadas e refeições fora de casa.  O que vai, de resto, de encontro às constantações 3 e 4: "You can afford (and find) an Upper East Side apartment all by yourself with a giant closet and plenty of space." ; "You never have to take public transportation when there are cabs everywhere!"
5) "You can run around in the city in 6 inch stilettos." 


Neste ponto sou expert e posso falar com a certeza de quem ama stilettos, mas os reserva para ocasiões muito especiais, dada a sua complexidade. Embora seja calçado extremamente elegante, um clássico sem mácula, não foram pensados para o quotidiano. Por norma, andam à volta dos 10 cm de tacão, quando não os ultrapassam, o seu salto é tão fino que se enfia literalmente em qualquer fenda da calçada e por muito exclusivos que sejam, magoam sempre os pés na zona da frente, dado o seu modelo ser em bico, um verdadeiro tormento para senhoras de pés menos graciosos. Correr com stilettos (quem diz stilettos diz qualquer calçado com salto matadorcomo uma bailarina, mantendo uma figura de cisne, como se tivesse aprendido a andar já com eles calçados, até é possível para as mais arrojadas e experientes, mas não se consegue fazer disso hábito com um estilo de vida extenuante.
6) "You'll be completely satisfied buying fashion instead of food."  Bem, já conheci de tudo. Há muita senhora que prefere ter uma boa carteira e sacrificar um bocadinho a despensa lá de casa. Em relação a isso, não me parece que a série exagere, porque há efetivamente gente assim e Carrie talvez seja um exemplo bem construído disso mesmo. 
7) "You can somehow afford living in New York by only writing one column a week." 


Pois... claro que me parece muito improvável. E creio que a série peca realmente nesses pontos, por ter dado tão pouco crédito à sua audiência. Mas há quem disseque The Sex and the City para além dos Manolos da Carrie, das Fendi da Samantha e do estilo algo monótono a cheirar a Ralph Lauren de Charlotte. Mas não será a única incongruência a esse nível. De resto, será repetir o que foi escrito nos pontos anteriores. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O inestimável valor da fraternidade





Se se incentivasse a paz com a mesma tenacidade que se fomentam guerrinhas sem importância, o mundo seria um lugar bem melhor. E isto vê-se nas questões mais básicas do quotidiano, assim como nas intervenções mais emergentes, na diplomacia de uma nação. 
Sobre a questão dos refugiados sírios, nota-se bem qual a fibra do povo português. Dos demais, escuso-me falar para não cair nos lugares comuns e fazer como muita gente: opinar genericamente sobre assuntos de natureza muito melindrosa. 
Mas, meus caros, em minha casa, por parte da minha mãe, muito mais generosa do que o meu pai, como, aliás, compete às mulheres, houve a transmissão de ensinamentos básicos de fraternidade. Se houver fartura, pois que se partilhe; se, por outro lado, a miséria nos bater à porta, como diz o outro, onde comem dois, comem três ou quatro. 
Goste-se ou não, os tempos mudaram-nos. Criou-se uma aversão à pobreza, à miséria, aos enjeitados. Outrora dizia-se que na pobreza havia uma certa nobreza de valores, que o dinheiro e o poder nos afetava e corrompia. Na obra de Júlio Diniz, Morgadinha dos Canaviais, talvez a personagem mais nobre dos romances que li, Augusto - a par de Siddhartha Gautam, numa vertente muito mais mística, mas que acaba por cair nos vícios mundanos-, é o símbolo de toda a hombridade, de uma honestidade pura, de uma crença inabalável nos valores e na irrelevância da materialidade. Talvez hoje os Augustos sejam cada vez menos para dar lugar aos imberbes e questionáveis Greys e se tenha substituído a moralidade pela ostentação.
Não sejamos, no entanto, com isso, hipócritas e que não se venda assim, sem mais nem menos, a ideia de que o objetivo supremo será o limiar da pobreza, de forma a captar um nirvana. Mas levantam-se questões mais profundas, de educação, de desenvolvimento humano e de distanciamento pelos mais fracos.
Aqui vos confesso, que esta ganância exacerbada, esta avareza, este desprezo pela vida, em países de um pretensioso estatuto de 1º mundo, me assustam de morte. 


terça-feira, 3 de março de 2015

Traços de personalidade fastidiosa: o discurso da pena.


Recordo, imensas vezes, dos tempos de miúda, quando vinha com a minha mãe, a pé pela aldeia, algumas senhoras mais velhas, com um semblante pesado e medíocre, dialogarem um discurso de loucos, depois de concretizado o cumprimento inicial do "então, como tem passado?"
- Ai menina, cá se anda. Tenho andado muito mal da minha cabeça. Hoje até acordei tonta. Sabe, isto são os nervos. Uma pessoa chega a velha e vê os que gosta a morrerem, é o que é. 
E um rol de queixumes que me maçavam. A minha mãe, sob um impulso humano, cria que havia alguma obrigação de ouvir estas frases deslavadas e lá lhes acalmava os nervos com uma boa hora de conversa fiada e alguma pancadinha nos ombros. Eu, normalmente, recostava-me num muro qualquer, sentava-me e ouvia aquela conversa de adultos, sem piar. 
Quando cheguei à idade do discernimento, lá fui comprovando que, efetivamente, há gente assim, que só me parece estar bem a desfiar os novelos das angústias sobre a primeira alma que lhes apareça pela frente. 
Momentos menos bons, infelizmente, todos os temos. Saber cuidar deles com elegância e alguma sensatez é que nem todos aprenderam. 
Ainda hoje, se for à aldeia onde cresci, se a sorte me apresentar perante uma antiga conhecida, lá terei que emprestar uns bons 20 minutos ao fastidioso discurso da pena própria: Coitadinha de mim que isto e que aquilo; que me dói aqui; que o meu marido é assado ou cozido; que os meus filhos, que até estão muito bem de vida, estão longe, coitadinhos... 
O caso adensa-se quando acontece com gente de fresca idade, com capacidade intelectual para pensar um pouco mais sobre o assunto e perceber que andar a gritar pelo mundo que a vida até nem corre como queremos, é uma tolice. 
De vez em quando, não há ninguém cuja confiança não seja abalada. Faz parte da vida. Desabafar com uma amiga ou familiar de confiança, é ótimo, mas não pode ser a base dessas relações. Falar sempre sobre os aspectos negativos da sua vivência, não traz boas energias, consome as forças e só convida ainda mais à angústia. Se o assunto não se resolve, das duas uma: ou é caso de médico ou então é mesmo caso de pouco juízo. 
Algumas religiões acreditam firmemente que falar sempre de um assunto ruim, traz má sorte, que o chama à nossa presença por mais tempo. Crenças à parte, não é preciso ser muito expedito para perceber que há alguma verdade nisso. Ou então, se houver necessidade de se simplificar, como se diz por aí: mexer na porcaria só faz com que cheire ainda pior. 


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Um incontornável romance sobre fazer de conta.

Fotografia tirada, durante uma das visitas de Alves Redol às fainas de arroz, 1951

A notícia do dia talvez seja esta , mas está longe de ser inesperada. Não vem desbravar nenhum território de ignorantes nem tampouco é a primeira vez que se ouve falar de algo do género. Embora o ser humano tenha uma memória excepcionalmente curta para o que lhe serve de interesse, em Abril de 2013 morreram, em Daca, cerca de 950 trabalhadores, vítimas das más condições de trabalho e segurança, mas, acima de tudo, vítimas do cinismo dos países desenvolvidos e da sua tolerância à brutalidade nos países emergentes. A teoria de que somos imensamente evoluídos, encontra uma barreira física que se fica pelas linhas da Europa Ocidental, Austrália e alguns países americanos. O resto, como alguém um dia profetizou, é carne para canhão.  
Mostra-se uma indignação flagrante em relação às notícias, porém, como já Tolstói escreveu, continuam-se a cometer os mesmos pecados, a alimentar os mesmos vícios e a tolerar, com ligeireza, o que se passa lá longe. 
Há uns bons anos, em Portugal, cenário retratado com um cruel detalhe na obra prima de Alves Redol - Os Gaibéus -, a labuta dos cidadãos simples, sem instrução, era feita desde o nascer ao pôr do sol. O trabalho matava, enlouquecia e espezinhava a existência humana sem rancores de maior. Se houvesse um ceifeiro rebelde, cortava-se-lhe o sustento e da sua débil família.  O estroina voltava ao trabalho sem piar. Porque a máquina precisava de ser alimentada há 60 anos, como hoje. Crer que participamos de uma sociedade evoluída, com preocupações básicas de fraternidade e igualdade de oportunidades é, para além de vulgar e desprezível, uma incontornável façanha de indivíduos implacáveis, cuja agenda é entorpecer as massas. 
O maior trunfo do ser humano é o conhecimento. Mas saberão utilizá-lo apenas em seu proveito ou, um dia, talvez sob um impulso da evolução, aprenderemos a ser altruístas? 




terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Más notícias e criaturas da função pública.


Sou pessoa metódica, de hábitos ligeiramente sensaborões, que gosta de estar no seu canto, fazer o que o dever incute e pensar apenas nas coisas agradáveis que a vida pode oferecer. Ora tudo o que implique chatices e aborrecimentos de maior, mexe-me com o sistema, não há nada a fazer. A maçada do dia foi verificar que o meu contador da água tinha sido removido, pelos excelentíssimos senhores da Câmara Municipal, porque, veja-se o disparate, alegam que não paguei a conta de Dezembro. Ora mais uma carta de inutilidade que estas criaturas da função pública tiram assim à desgarrada. É óbvio que tenho os recibos e, mesmo assim, passar pela maçada de ir à Câmara, vulgo antro de tontos, tratar de colocar tamanhas alarvidades no devido lugar, era algo que dispensava com prazer inestimável. 


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Dartacão, numa altura em que a honra de um homem contava.






Um cavalheiro não usa a espada unicamente para matar, utiliza-a para defender a pátria, para defender causas justas. E só deve desembainhá-la quando está em causa a sua honra.


Numa altura em que a palavra e a honra parecem ter um pardo valor por entre um manancial de parvoíces, em que a boçalidade chega também através da televisão, sente-se uma assaz nostalgia pelos desenhos animados que ensinavam as nossas crianças o valor de uma causa, o sentido de justiça e a responsabilidade que cada homem carrega em nome da sua virtude. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sonhos de consumo, num registo amplo.



Nunca fui mulher de desperdiçar muito do meu tempo a pensar em grandes sonhos de consumo. Uma viagem despretensiosa, de vez em quando - com uma passagem obrigatória por Florença, com paragem no Uffizi, pois nada de países onde o calor me maça e me atormenta a tez, que para apanhar sol, fico-me por Portugal; um carro que me permita andar desafogada sem me preocupar se vai deixar-me em maus lençóis num futuro breve; uma casa - não havendo necessidade do sonho português da casa própria, megalómana, com uma prestação assustadora ao final de cada mês, pagando para isso, com o envelhecimento precoce da pele de uma senhora que entenda, minimamente, a carga de arrelias que isso acarreta - cómoda, sem grandes excentricidades, com o indispensável, com a máxima de estar ao nível das minhas necessidades e dos meus animais; concertos e festivais, assim como bailados, óperas e alguns pequenos luxos que possam surgir em nome da cultura; e, por fim, uma substancial soma em sapatos, carteiras e peças clássicas, que durem e façam o seu trabalho sem seguir tendências fugazes que passam com as fases da lua. Fica, pois, o registo. 




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Caras senhoras, o rancor deixa-nos velhas.


Jessica Chastain em The Help, de Tate Taylor. 
É bem sabido que as mulheres são mais rancorosas do que o sexo oposto. Talvez tal se deva ao facto de pensarem mais seriamente na vida, de fazerem planos a longo prazo mais detalhados, de carregarem o mundo às costas, com responsabilidades profissionais, familiares e sociais. A verdade é que tudo é exigido a uma senhora - que seja mãe, que seja recatada, esposa dedicada, profissional exímia, dona de casa por excelência, enfim uma maçada. 
Aos homens pede-se que usem das suas habilidades para serem bons profissionais, para gerarem lucros e pouco mais. Se é um estroina, é um doidivanas, um tolo jubiloso, nada que não estejamos habituados, não se quer prender, faz ele muito bem e outras frases feitas que se tornam sensaboronas de tanto mau uso. 
Se uma mulher gosta de si ao ponto de, não esquecendo a sensibilidade e bom senso, - que faço sempre questão de relembrar - não se sujeitar a demandas masculinas, a tolices de sogras, a berreiros de crianças mal acostumadas, a uma casa sob os seus comandos, mas onde não reina sozinha, já é uma tola, não se sabe o que a fulana quer da vida, uma desgraçada, perdida no mundo
Não há pachorra para tanta sensaboria portuguesa. Eu bem que me borrifo para essas exigências e vivo a vida da forma que entendo por mais proveitosa para mim. 
Nunca fui pessoa de grandes rancores. Vai de acontecer alguma ordinarice contra a minha pessoa, e sou capaz de explodir com parcimónia, pensar no assunto e afastar-me como manda o bom senso. O amor próprio manda lembranças a muita senhora, mas comigo não vai passear para longe. Talvez por isso, não seja dada a sentimentos pequenos, a rancores, a quezílias sem fundamento, onde não há algozes ou vítimas, apenas circunstâncias e pouco savoir faire da outra parte. Mas que haverá uma senhora de fazer? Envelhecer a matutar no assunto? Nâo me parece. Pois que tenho para mim o objectivo de envelhecer com sabedoria, muito fair play e boa disposição. Não há tempo para mesquinhez. Oitenta anos passam a correr e não me dou a canseiras dessas. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sempre a deixar o de hoje para amanhã.

Tantas certezas tenho das minhas virtudes como dos meus defeitos mais profundos. Um deles é a mania desesperante e cansativa de colocar em segundo lugar as coisas importantes, aquela burocracia de gaveta. Chateiam-me por demais essas questões. Claro que ninguém gosta, como é óbvio, mas eu nasci com um gene qualquer que me dificulta a agilidade para resolver certos assuntos. A ver vamos se consigo alterar essa maçada e colocar as ideias em ordem. 


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dinheiro há muito, mas sabê-lo gastar também é importante.



O canal generalista Sic passou esta semana três entrevistas interessantes a três ex jogadores de futebol portugueses que, basicamente, contaram as agruras de uma vida, depois do apogeu, a contar tostões. A minha mãe costuma dizer, no alto da sua sabedoria empírica que qualquer pessoa pode ganhar muito dinheiro, guiado pela bonança, mas que nem todos o sabem gastar. O que vem, de facto, dar força ao tamanho de disparates que ouvi. Era fulano que gastava em senhoras de fraco gabarito; era sicrano que gostava de estourar dinheiro em carros de alta cilindrada, muito apreciados pelos novos ricos; outro fazia maus investimentos, porque nunca nenhuma alma caridosa lhe advertiu que é preciso bom olho para o negócio e nem tudo o que reluz é ouro. A inteligência não se compra e sigam-se-lhe os exemplos de vida. Se vos sair o Euromilhões, caros leitores, tenham tino, instruam-se com viagens, leituras, com alguns luxos que vos acalentem o espírito, mas também saibam ser comedidos, porque nunca se sabe a que pontos se chega

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A perfídia de Boccacio.

História de Nastacio degli Onesti (1483), por Botticelli. 

Podemos ler em Decâmeron de Boccacio, uma das histórias de crueldade mais insana da Renascença. Nela subentende-se a carolice humana, o querer porque sim, aquele se me deixas, mato-me e nunca mais me vês que tantas mulheres e homens usam em tempo de lamúria, com paixões febris e que se vivem apenas por um dos lados, sendo obstante à outra pessoa que se compromete num relacionamento e que decide, por direito à individualidade, por razões várias, por vezes com uma dor dilacerante no peito, que à relação se deve dar um término. 
Nastacio degli Onesti, de Ravena, procura a solidão numa floresta de pinheiros, infeliz por causa da mulher amada, que recusou casar com ele. Vê subitamente a bela mulher, nua, ser perseguida por um cavaleiro a cavalo e atacada pelos seus cães. A cena dramática prossegue, com o cavaleiro dando um fim à vida da donzela, arrancando-lhe o coração do peito e as entranhas, para dá-las como alimento aos cães. 
Porém, para espanto do pobre Nastacio, envolto em estupefacção perante tamanha crueldade, a mulher aparece viva e sem sinais de violência. Regenerara-se graças a um castigo que lhe fora imposto, não só a ela, mas também a Nastacio. Ele, incrédulo, percebe que é castigado pelo suicídio que cometera naquela floresta, desvanecendo de amor pela amada que lhe negara o matrimónio; e ela por lho ter negado, por ter um coração de pedra, por lhe causado tamanha dor, embora no amor não possa haver algozes e vítimas.
A jovem é atacada continuamente, morta e profanada e ressurge com vida passados poucos minutos, recomeçando todo o massacre.  
Atordoado, pede a amada novamente em casamente, para com isso travar a maldição. Ela, até então na veemente convicção de não levar o casamento adiante, reconsidera e aceita enlaçar-se com degli Onesti. 
E lá diz o povo, se não vais lá a bem, vais lá a mal. 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Má vizinhança.


Julliete Lewis em The 4th floor, de Josh Klausner.

Já não é de hoje que tenho conhecimento do tipo de pessoas que habitam o prédio onde vivo. Maioritariamente indivíduos de baixa instrução, gente rude, com jeitos e manias do português falido. Também há gente de bem. Um casal simpático no primeiro andar - uma senhora de falas elegantes e um senhor muito polido -, mas fica-se por aí. 
Ultimamente, o vizinho de baixo, incitado pela neurose e histeria da esposa, maça-me com assuntos pequenos e enfadonhos, do género ouvi-mo-la falar durante a noite, o volume da televisão está alto, evite usar o autoclismo (a sério?) e outros disparates de dimensão anedótica.
Ora está uma senhora descansada na sua vida, com os dois gatos e a cadela, sem ter até com quem conversar, usando de um quotidiano totalmente natural, sem disparates e embirrices à mistura, e leva com a boçalidade. Não há pachorra. No entanto, o que me exalta os nervos é o facto de saber que a senhora do andar de baixo tem dado um uso muito pouco nobre ao buraquinho da fechadura e escrutina a minha rotina. O marido, no alto da sua insignificância brejeira, teve o desplante de vociferar que havia chegado às tantas horas da noite, que usei saltos ao subir as escadas do prédio, que até me descalcei à porta, mas que acordei a senhora psicótica que divide a casa consigo. Para o que eu haveria de estar reservada, caros leitores. 
Vai daí, é impossível não me lembrar do The 4th floor, de Josh Klausner, eu, pois claro na pele de Julliete Lewis e os meus estimadíssimos vizinhos do andar de baixo na pele de, façamos figas, algo menos assustador do que o psicopata das múmias. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Maçada da noite.

Está uma senhora deitada, em dor agonizante de enxaqueca, e ouve um estrondo vindo da cozinha. O chão alagado, um barulho ensurdecedor como o centrifugar de uma máquina de lavar roupa e uma boa hora e meia a limpar tudo. Água desligada, banho adiado, as dores cá estão e eu continuo a pensar numa forma de contornar as coisas. Em alturas como estas, pergunto-me se morar sozinha é de facto o apogeu da liberdade feminina. Agora fazia-me falta um cavalheiro dotado de capacidades para a bricolage. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sensibilidade e bom senso

Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir faria hoje 106 anos se ainda fosse viva. Pouco provável para uma mulher que viveu com tamanha intensidade. Dedicou-se, entre uma imensidão de coisas, aos estudos feministas - Segundo Sexo -, em meados do séc. XX, pouco depois da Segunda Grande Guerra ter terminado, levada no encalço das mudanças abruptas que seriam obrigatórias na educação e mentalidades das senhoras da época. 

Retrato a óleo de Jane Austen
Muito antes dela, já outras o fizeram. Jane Austen, em plena revolução industrial, seguiu os novos valores e rompeu com tradições já enraizadas há séculos no papel feminino na sociedade. Coincidência ou não, a escritora nunca viria a casar e conseguiu a sua independência financeira à custa da sua desenvoltura para a escrita e a sua incontornável capacidade de observar o comportamento humano. 

Longos anos passados, imortalizaram-se mulheres de força e vontades indestrutíveis, mas esqueceu-se a sua importância e a sua mensagem passou a ser indecifrável para as gerações de mulheres do séc. XXI. Talvez tenha havido uma confusão criada a certo ponto. Quando falamos de Sensibilidade e bom senso, falamos de saber ser-se mulher. A uma senhora pertence delicadeza, saber estar, bem vestir, falar com modos, manter o seu orgulho e a cabeça erguida em todas as situações, conhecer a sua força, mas também as suas fragilidades. Trabalhar o que se tem de agradável e mitigar o desagradável, porque nem todas nascemos com a mesma instrução e/ou educação. Self made woman é, talvez, o termo mais aplicável para as necessidades da contemporaneidade. Buscar conhecimento onde há lacunas evidentes, ser incansável no resgate das boas maneiras e aprender onde é o seu lugar. Cada coisa no seu lugar, cada pessoa com o seu espaço e o seu propósito. 

Sense & Sensability de Ang Lee, baseado no livro homónimo de Jane Austen
Ter direito ao voto, a romper matrimónios, à independência económica, à sexualidade desprovida de falsos moralismos, não invalida que não sejamos polidas. Hoje as senhoras perdem-se em trivialidades, como há 100 anos. No entanto fazem-no de forma mais escabrosa, talvez até mais rudimentar. Boçalidade nunca será agradável, passem-se os anos que se passarem. Jeitos de meretriz, vocabulário escasso, cabecinhas ocas e mentalidade de Casa dos Segredos não faz nada por nenhuma mulher. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Resolução 2014 - livros


Fiódor Dostoiévski
Nunca fui pessoa de listar o que é premente fazer todos os anos. O que é mesmo necessário, não esquecemos, mas podemos abandalhar as coisas um bocadinho. Quando damos por ela, já andamos ligeiramente perdidos. Acontece-me o mesmo quando falto a uma aula. Na semana seguinte, volto e parece-me tudo tão diferente, fico deveras baralhada e torna-se bem mais penoso, pelo que levar a rotina com regras e alguma tranquilidade ajuda a que nos sintamos em paz. 
Em 2013 acabei por ler bem menos do que aquilo que pretendia. Não por falta de tempo, mas por ociosidade, inércia do género vou ver aqui uma série ou filmito no computador. Vai daí, começa-se a perceber que o Siddhartha ainda está na prateleira a ganhar pó e que tenho o Humilhados e ofendidos para ler há mais de um ano (assim como Gente pobre e O eterno marido). O último que li, de Tolstói, maçou-me. Gosto do autor e admiro toda a sua filosofia de vida, mas o Ressurreição, Máslova e a sua indecência, o emaranhado do mesmo e do mesmo, e toda uma assaz burguesia da personagem principal, em busca de restos de moralidade, tornou-se fastidioso. Faltam umas boas 80 páginas para o final e talvez não o retome. Raramente deixo um livro por acabar. Há muitos anos, deixei Em busca do tempo perdido a meio.  Tenho o desejo de recomeçá-lo. Na altura tinha 17 anos e tornava-se demasiado pesado para a minha jovialidade. Portanto, a verdadeira resolução para 2014, para além do que, para mim é óbvio, será, pelo menos, arrumar o stock de livros da minha prateleira e buscar, uma vez mais, aquele prazer perdido das tardes chuvosas a ler Eça de Queirós. Porque sempre acreditei que nada é tão enriquecedor como a leitura. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Muito mau ar e afins.

Embora não me dedique a saídas na noite da passagem de ano, um cafezito é habitual, nem que seja para me obrigar a vestir a rigor para dar as boas-vindas ao ano vindouro. Como não sou pessoa de excentricidade, mantenho também todos ou outfits muito limpos e sóbrios, pelo que optei por umas calças estilo jogging pretas, um top de alças em crepe azul petróleo e um blazer branco e dourado. Com os adereços também dourados, uma carteira de boa qualidade e uns stilettos, não há maneira de errar. 
Efetivamente, se nos focássemos apenas no básico e despretensioso, talvez se cometessem menos erros. As meninas continuam a usar os pavorosos vestido bandage, de lycra de má qualidade, collants de vidro, saltos vertiginosos que arruinam a postura em segundos e todo um styling ao nível da maquilhagem e cabelos de bradar aos céus. Colorações a pedir manutenção, madeixas a lembrar os cabeleireiros Milu de bairro, maquilhagem exagerada e mal colocada. Blocos de base pelo rosto, ares pesados e um trago a menina que não se pode apresentar aos pais do namorado. 
Continua-se a dar mais valor ao pouco modesto, aos brilhos em exagero, aos tecidos de parda qualidade. Mas, minhas senhoras, até para vestir Zara é preciso ter-se porte. Uma mulher elegante, é elegante com Chanel, mas também não decepciona com fast fashion bem escolhido. A conjugação da deselegância com ares e trejeitos de meninas de maneiras dúbias, é desastrosa e, para ser sincera, já me canso de olhar para tamanhos disparates. 

domingo, 24 de novembro de 2013

Uma questão de postura.

Sou defensora que numa senhora ou senhor uma boa postura e passo seguro são factores determinantes para serem visto de forma diferenciadora ao nível profissional, pessoal ou social. Um bom exemplo de postura exímia são as mulheres que praticam dança clássica. Para além de conseguirem um corpo escultural, conseguem manter uma postura correcta. Costas direitas e cabeça erguida, assim como uma classe irrepreensível no andar. 

Para mostrar como uma pose e a expressão corporal podem influenciar o resultado de um retrato, a fotógrafa Gracie Hagen criou a série Ilussions of the Body.
As fotografias demonstram, de forma simples, como tudo é, de facto, uma questão de postura. 




domingo, 17 de novembro de 2013

Infiel

Diane Lane e Olivier Matinez em Unfathful de Adrien Lyne
Já lá vão uns bons aninhos desde o Unfaithful (2002) e a brilhante interpretação de Diane Lane, a adúltera Sra. Summer, perdidamente iludida com uma paixão luxuriosa por um jovem sedutor (Olivier Martinez) francês - que se torna cliché, mas que vai funcionando no grande ecrã.
Apesar do filme, num todo, não ser propriamente magistral, funciona perfeitamente e enleva-nos na relação esquizofrénica com um moço, conhecido do nada, um marido que é um verdadeiro cavalheiro à mistura e uma criancinha adorável.
Connie Summer começa por encontrar um deleite irresistível ao chamá-lo ao seu pensamento e muito proximamente trá-lo para a dimensão corporal, deseja-o intensamente e esquece, com profundo egoísmo, os votos matrimoniais. O marido, esse poço de boas intenções é o último a descobrir e é uma personagem tão pusilânime que aprende a controlar a sensatez e dignidade ao ponto de querer varrer a sujidade para debaixo do tapete.
Nem todas as histórias seguem o mesmo fio condutor, nem todos os adúlteros se encontram em debate acérrimo entre o certo e o errado, entre o enlevo sexual e o respeito pelo cônjuge. Embora Connie tenha sido infiel, debate-se numa luta titânica, que traz uma derrota inglória para o respeitoso esposo (Richard Gere), mas que demonstra restos de alguma moralidade. Nem todos os comportamentos adúlteros se comprometem com esta linha condutora. Há os que trapaceiam sem rodeios, que chasqueiam e competem com uma gata no cio, com grandes probabilidades de lhes ganhar com honras de medalha de ouro.
Há dias vi um fulano, um homenzinho de estatura ridícula, de seus quarenta e poucos anos, que conheço como pai e esposo, senhor dono de estabelecimento comercial, enrolado com uma senhora de poucas maneiras e trejeitos de meretriz de fraca categoria. Pois é claro que toda a gente conheceu o indivíduo, todos lhe lançaram o olhar inquisidor - embora possam cometer os mesmos deslizes sem grande combate com os escrúpulos. Aqui não me parece, pois, haver qualquer resquício de dignidade, alguma luta titânica interior entre o bem e o mal. Vi um homem de índole fraca, a faltar ao respeito à família, a tudo o que nela se encerra e a escarnecer a sua própria (falta) de dignidade.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Walking Dead, o regresso.

Não representa novidade alguma, para quem me conhece minimamente, que sigo religiosamente a série do canal AMC, The Walking Dead, um sucesso a nível planetário, é verdade, mas com todo um encanto que vai muito para além do mainstream televisivo. Primeiramente, parte com a vantagem de Frank Darabont, o génio por trás do filme mais cotado do IMDB, The Shawshank Redemption (1994), nomeado em 95 para o óscar de melhor filme. Se a obra de Frank é claramente superior, não podíamos ter menos que magistralidade em Walking Dead.
Mas o que fez da adaptação dos comic books homónimos de  Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard um sucesso a esse nível foi Rick Grimes (Andrew Lincoln), um homem carregado de virtudes, com índole entre a inocência e o estado primário da necessidade que, embora em boa verdade aguce o engenho, não é utilizada em vantagem para a cobardia, os atos medíocres e as palavras deselegantes. Até em situações apocalípticas, há a necessidade de ser-se um cavalheiro e fazer-se notar numa multidão de bárbaros. Acontece que a personagem principal da série é esmagada contra as circunstâncias de  um casamento falhado, de uma esposa manipuladora, com comportamentos tão antagónicos que tanto nos causam uma repulsa que nos chega até às entranhas, como nos causa uma certa ligeireza, muito ao género: o mundo está um caos, não há forma de sermos tão polidos.
Na semana em que estreou a quarta temporada da Walking Dead, reencontra-se o calor humano, a tranquilidade irrequieta do perigo iminente silencioso, a destreza de personagens tão caricatas quanto espantosas - e lá está o meu encanto por Daryl Dixon e a exótica Michonne -, um certo aroma aos primeiros episódios, com toda a complexidade entre personagens tão comuns quanto estranhamente enfadonhas, com a lacuna inevitável da ausência de Shane e de Lori que, embora tenham pecado tornando-se inevitável mantê-los no trama, fizeram - honras sejam feitas - de Walking Dead uma das melhores séries de sempre.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Be careful what you wish for.

Todos nós achamos, de forma absolutamente resoluta, que sabemos o que é vantajoso para nós, quem queremos ao nosso lado, que demónios devemos expurgar. Se pensarmos bem a respeito, percebemos que há pouquíssimas coisas que conseguimos controlar e o que desejamos é um gritar mais profundo que pode sempre ficar reservado para uma realidade paralela. Quando o que almejamos se torna realidade, é possível sentir o consolo imediato de uma tarefa acabada, de um ciclo fechado ou de uma volta em aberto. Posto isso, parte-se do princípio que desejamos o que é bom, o que nos trará vantagens. Pois desengane-se quem assim pensa. Pode acontecer que o perigo esteja naquilo que desejamos e quando se concretiza a demanda, sentir-se um vazio interior sem precedentes. O problema é que raramente há volta a dar e será sempre muito difícil voltar atrás, tentar consertar o que não tem mais remédio. Por isso, já Henry Selick nos falou, através do excelente Coraline, com um traço infantil e uma pitada de ingenuidade, be careful what you wish for, porque pode realizar-se.