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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Jay Gatsby, um homem ímpar.

 
Leonardo DiCaprio em The Great Gatsby, de Baz Luhrmann.

A foto da semana, aqui no blog - talvez não tenham notado -, pertence a uma das mais belas cenas do cinema dos últimos tempos. Trata-se de DiCaprio, com o seu ar imperial nórdico, vestido como um cavalheiro, ligeiramente excêntrico, rodeado de flores brancas, impaciente, com uma expressão de angústia que haveria de ficar eternizada para as gerações que virão. Sou, inegavelmente, fã do seu trabalho e, por norma, nunca decepciona. Soube desligar-se com mestria do imberbe Jack Dawson de Titanic e talhou a sua carreira, deixando para trás aquela etiqueta desmesurada de sex symbol que qualquer senhor de bom gosto abomina e repele com veemência. 




Em The Great Gatsby, baseado no livro homónimo de um dos maiores nomes da literatura do século passado, Scott Fitzgerald, interpreta Jay Gatsby, um homem cuja riqueza material cria um interessante paradoxo com a sua espiritualidade. Embora um self made man, soube absorver os ensinamentos, a educação de esmero, a cordialidade e toda a sumptuosidade que um homem criado em berço de ouro deveria ter a obrigação de possuir e que tantas vezes refuta em nome da ordinarice, e da sua torpe elasticidade moral. 
Amava incondicionalmente uma mulher, cujo desvelo não lhe seria correspondido da mesma forma. Talvez a tenha amado como apenas se ama em filmes ou em grandes romances literários, mas foi a imagem de um amor puro, despretensioso que soube, como a música diz, deformar tudo ao seu jeito, para que parecesse bonito. E em Jay Gatsby tudo parece belo e magestoso. 


Kate Winslet para The Edit ou a beleza dos seus 40





Kate Winslet para The Edit

Apesar de nunca ter feito parte das minhas beldades de eleição, é inegável a sua raça de english rose, a sua pose assertiva e tranquila, como a de uma verdadeira senhora que sabe ao que vem, como estar e como dirigir com rigor a sua carreira. Toda a gente se lembra da ruivinha de busto farto, impertinente e até ligeiramente tonta, em Titanic. Haveríamos de a relembrar por longos períodos e uma geração inteira de meninas e graúdas invejou-lhe a sorte de co-protagonizar, com Leonardo DiCaprio, uma das mais míticas histórias de amor do cinema Hollywoodesco



Se Kate Winslet não me conquistou lá, fê-lo magistralmente em The Reader, em Revolutionary Road, em The Life of David Gale ou mesmo em Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Vê-la tão graciosa no editorial da The Edit, mais bela aos 40 do que aos 20, com uma segurança de discurso e uma forma de diva de outros tempos, faz-me gostar ainda mais dela. 

A entrevista aqui

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Um belíssimo engano.



Há bastante tempo não via um filme tão belo e prosaico como The Theory of Everything. Baseia-se na vida privada do casal Jane e Stephen Hawking, mais concretamente no livro que a primeira senhora Hawking lançou, com o título Viagem ao Infinito.
Ressalvo, nesta dissecação, que não li o livro nem faço pretensões de ler, portanto, foco-me no filme e nos numerosos artigos que consultei, dando conta de algumas incongruências. 
Existe todo um enlevo magnífico que prende o espectador ao ecrã e que transporta para um clima de romance puro, uma mística muito cinematográfica que, raramente, ultrapassa a ficção. Quando Jane aceita, resolutamente, casar com Stephen - um homem de intelecto evoluído e deslumbrante -, apesar da sua condição de enfermo, acontece imediatamente um ligação generosa com a personagem, interpretada por Felicity Jones. 
No entanto, e já nos basta os tormentos naturais de uma relação ao longo dos anos, soma-se aqui um elemento de stress que foi sendo, ligeiramente, aniquilado durante o filme: a doença degenerativa de Stephen Hawking. 
Jane aparece como uma mulher de poucos sonhos, devota, não se lhe conhecem amigos e acaba por se interessar pelo professor de piano dos seus filhos, um homem honesto e ponderado, que se mostrou irredutível na certeza do seu amor. 
Os votos acabaram por se quebrar quando Hawking se aproxima da sua enfermeira, Elaine Maison, em 1995, depois de  30 anos de casamento, terminados com um incongruente diálogo, no qual Jane apenas reafirma que foram demasiados anos sob tamanha pressão. 
Soma-se a toda esta pacificidade a esplendorosa The arraival of the birds, da Cinematic Orchesta e temos as derradeiras cenas do conto de fadas, com uma retrospectiva de um casamento pacifico e, acima de todas as probabilidades, feliz. 

Porém, analisando os factos, não há grande lugar a histórias de princesas e príncipes. Houve uma mulher, que no filme aparece quase aniquilada, com aspirações e sonhos, que teve amigos, que teve paixões e que existiu para além da personalidade de Stephen Hawking. 

Contrariamente ao que ficou latente no filme de James March, o matrimónio não se desfez com palavras afáveis e o relacionamento com Elaine Maison, a enfermeira de comportamento dúbio e tosco, foi um pequeno tormento para o físico renomado, havendo, inclusive, rumores de violência doméstica. Verdade ou não, há que não esquecer da máxima de que what goes around comes around.
E desta forma, caiu por terra talvez o filme mais belo do ano, com especial ressalva para o trabalho de Eddie Redmayne, que talvez seja congratulado com o Óscar. 

sábado, 15 de março de 2014

O que Norma Bates fez por Psycho?


Estreou, recentemente, a segunda temporada de Bates Motel, que segui com verdadeira devoção, no ano passado. Criada por Antony Cipriano, que soube usar com mestria o icónico Psycho de 1960, de Hitchcock, baseado no livro homónimo de Robert Bloch. Em 98, Gus van Sant pegou no trabalho anterior, e criou o primeiro remake, com Vince Vaughn no papel de um improvável Norman Bates. 
No caso da série, Cipriano soube fazer render o peixe e trouxe o argumento para o século XXI, retratando a juventude do assassino psicótico do hotel Bates. Talvez Fredie Highmore seja muito jovem para suportar uma herança tão pesada e é em Vera Farmiga, mãe de Norman, que a série ganha todo um relevo muito para além do que Robert Bloch deixou no seu policial. Toda a relação no limite da esquizofrenia que se observa de episódio para episódio entre mãe e filho, o deslevo irracional, o germinar de uma mente severamente perturbada. É caso para afirmar que se não houvesse uma Norma Bates, em Psycho não teríamos encontrado tamanha complexidade.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

La Vie d´Adèle ou a melhor história de amor do cinema.


De Abdellatif Kechiche, o filme é uma pura obra de arte contemporânea. Cru, realista, íntimo e doloroso.  Léa Seydoux, em entrevista, confidenciou que não se trata de uma história de amor lésbico. Trata-se pois, talvez, da mais bela história de paixão que o cinema viu nos últimos anos.
Os planos são maravilhosos e a beleza natural dos intervenientes torna o filme rico, quase místico. Adèle Exarchopoulos parece ter nascido dentro dele e crescido sob a influência da sua riqueza. Depois de Summer, de Kenneth Glenaan, talvez não veja um filme tão precisoso como La Vie d'Adèle por um longo período de tempo, até que, divaguemos, por inspiração divina, algum mestre da sétima arte destrone Hollywood e todo o seu colosso fatigante com uma simplicidade bucólica. 




quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Inside Llewyn Davis ou onde estão os Coen?


Que grande pena a minha que os irmãos Coen tenham perdido o brilho em Inside Llewyn Davis. Vai-se a ver e lembrou-me Lost Highway, do confuso e inconstante trabalho de David Lynch. Em boa verdade, quando vemos um Burn After Reading, com as misturas improváveis, toda a particularidade sensacional do trabalho dos Coen, percebemos que não podemos esperar sensaboria nem previsibilidade. Uma arma que neles funciona bem e que em Lynch se torna cansativa. 
Depois de alguns Óscares, uma Palma de Ouro pelo belíssimo Barton Fink, seria de esperar um trabalho mais magistral. Não que não o seja, mas auspiciava consideravelmente mais. A aposta em Isaac para Llewyn Davis, o aspirante a estrela de folk music, podia ter sido o calcanhar de Aquiles, mas não me parece que o elenco esteja no âmago da minha desilusão. Talvez a confusão que se gera, lá está, a  lembrar Lynch, no seguimento do filme, que faz com que o espectador finalize com um então era isto? seja o problema, mas não é somente essa a questão. Depois de No Country for Old Men, Fargo ou Blood Simple, dos Coen, esperava uma obra irrepreensível. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pretty Woman - uma graciosa Vivien

Pela primeira vez, ontem, na televisão, vi o Pretty Woman, de Garry Marshall. O filme é um conto de fadas moderno, pitoresco e rebuscado que vai buscar o que mais naif há num romance: o querer alguém pela beleza que encerra no seu todo, ultrapassando as barreiras morais. É uma estrutura pouco firme para uma relação, mas poderia funcionar. A personagem de Julia Roberts, a jubilosa Vivien, mulher de profissão duvidosa, é rica e explorada de forma a criar uma Gata Borralheira das ruas da má vida. Simpática, enérgica, com um jeito de menina inocente, cria magnetismo e simpatia por parte do público. Quem não se compadece quando a personagem é ostracizada ou posta em linha de fogo pela high society americana? Dei por mim a torcer pelo desenlace feliz entre o cavalheiro bem falante, de modos agradáveis (Richard Gere) e a encantadora meretriz. 
Verdade seja dita, Julia Roberts empresta muito bom ar e um tipo muito distinto de mulher à personagem. Ruivinha, com lindos caracóis, pele clara, esguia e curvilínea - uma mulher se sonho. Se todas as profissionais do sexo tivessem tanta graça e tamanha compleição, minhas senhoras, andávamos todas bem mais amedrontadas. Não o são, certamente, embora as haja bonitas e discretas, daquelas que nunca imaginaríamos que se dedicam profissionalmente à mais antiga das artes. 
Paradoxos e relutâncias à parte, Pretty Women é um marco dos anos 90 por todas essas razões, talvez por marcar um rompimento do paradigma da menina com maneiras deselegantes que se transforma, visualmente, numa distinta dama. Uma dama não o é por vestir bem, é-o nas maneiras e jeitos, mas também na simpatia, no acolhimento, na tranquilidade e naturalidade com que vive os seus dias e isso Vivien tinha de sobra. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sensibilidade e bom senso

Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir faria hoje 106 anos se ainda fosse viva. Pouco provável para uma mulher que viveu com tamanha intensidade. Dedicou-se, entre uma imensidão de coisas, aos estudos feministas - Segundo Sexo -, em meados do séc. XX, pouco depois da Segunda Grande Guerra ter terminado, levada no encalço das mudanças abruptas que seriam obrigatórias na educação e mentalidades das senhoras da época. 

Retrato a óleo de Jane Austen
Muito antes dela, já outras o fizeram. Jane Austen, em plena revolução industrial, seguiu os novos valores e rompeu com tradições já enraizadas há séculos no papel feminino na sociedade. Coincidência ou não, a escritora nunca viria a casar e conseguiu a sua independência financeira à custa da sua desenvoltura para a escrita e a sua incontornável capacidade de observar o comportamento humano. 

Longos anos passados, imortalizaram-se mulheres de força e vontades indestrutíveis, mas esqueceu-se a sua importância e a sua mensagem passou a ser indecifrável para as gerações de mulheres do séc. XXI. Talvez tenha havido uma confusão criada a certo ponto. Quando falamos de Sensibilidade e bom senso, falamos de saber ser-se mulher. A uma senhora pertence delicadeza, saber estar, bem vestir, falar com modos, manter o seu orgulho e a cabeça erguida em todas as situações, conhecer a sua força, mas também as suas fragilidades. Trabalhar o que se tem de agradável e mitigar o desagradável, porque nem todas nascemos com a mesma instrução e/ou educação. Self made woman é, talvez, o termo mais aplicável para as necessidades da contemporaneidade. Buscar conhecimento onde há lacunas evidentes, ser incansável no resgate das boas maneiras e aprender onde é o seu lugar. Cada coisa no seu lugar, cada pessoa com o seu espaço e o seu propósito. 

Sense & Sensability de Ang Lee, baseado no livro homónimo de Jane Austen
Ter direito ao voto, a romper matrimónios, à independência económica, à sexualidade desprovida de falsos moralismos, não invalida que não sejamos polidas. Hoje as senhoras perdem-se em trivialidades, como há 100 anos. No entanto fazem-no de forma mais escabrosa, talvez até mais rudimentar. Boçalidade nunca será agradável, passem-se os anos que se passarem. Jeitos de meretriz, vocabulário escasso, cabecinhas ocas e mentalidade de Casa dos Segredos não faz nada por nenhuma mulher. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Dourado arrojado.

Diana Kruger, como Helena de Tóia, em Troy de Olfgang Petersen

Já não é nova a paixão feminina pelos adereços de moda dourados. Jóias, carteiras, sapatos, brocados... O ouro ilumina até a tez mais pálida, aquece o look e contraria o pasmaceira de um monocromático. 
Não é à toa que as belíssimas mulheres que marcaram a história, usavam imponentes colares dourados, brincos, anéis pulseiras e tiaras. Vejamos Cleopatra, interpretada pela imortal Sra. Taylor, a exótica Rainha Olímpia, por Angelina Jolie, em Alexander, The Great ou mesmo Diane Kruger, na pele da fatídica Helena de Tróia. É bem verdade que se tratam de reconstituições cinematográficas, em grande escala, organizadas para massas - nem sempre fiéis à sua herança histórica -, mas há o cuidado de ser criterioso ao nível da caracterização, pelo que podemos, perfeitamente, beber inspiração nas suas personagens. 

Elisabeth Taylor, no filme Cleópatra, com papel homónimo, de  Joseph L. Mankiewicz

Como quem não tem cão, caça com gato, também hoje quem não tem meios para metais nobres, pode considerar materiais modestos, de qualidade aceitável. 





domingo, 15 de dezembro de 2013

I see fire.


Se em boa verdade ambos os filmes da saga The Hobbit não fazem jus à excelência de Tolkien e ao trabalho dirigido por Peter Jackson já lá vão mais de dez anos, com a imortal trilogia The Lord of The Rings, Howard Shore, o senhor por detrás da magnífica banda sonora, continua a trabalhar com excelência. As músicas que acompanham os créditos - para além da banda sonora - demonstram sempre a sua magistralidade de forma exímia. Into The West talvez tenha sido o melhor trabalho - juntando-se a voz de Annie Lennox -, mas I See Fire, muito mais fresca, de encontro a um paradigma diferente, atingindo um público também ele distinto, embora não se lhe chegue aos calcanhares, faz o seu trabalho. Ed Sheeran e a sua juvialidade atingem um patamar menos ambicioso, mas igualmente bem explorado. 

Ed Sheeran - I see fire


Annie Lennox - Into The West 



domingo, 17 de novembro de 2013

Infiel

Diane Lane e Olivier Matinez em Unfathful de Adrien Lyne
Já lá vão uns bons aninhos desde o Unfaithful (2002) e a brilhante interpretação de Diane Lane, a adúltera Sra. Summer, perdidamente iludida com uma paixão luxuriosa por um jovem sedutor (Olivier Martinez) francês - que se torna cliché, mas que vai funcionando no grande ecrã.
Apesar do filme, num todo, não ser propriamente magistral, funciona perfeitamente e enleva-nos na relação esquizofrénica com um moço, conhecido do nada, um marido que é um verdadeiro cavalheiro à mistura e uma criancinha adorável.
Connie Summer começa por encontrar um deleite irresistível ao chamá-lo ao seu pensamento e muito proximamente trá-lo para a dimensão corporal, deseja-o intensamente e esquece, com profundo egoísmo, os votos matrimoniais. O marido, esse poço de boas intenções é o último a descobrir e é uma personagem tão pusilânime que aprende a controlar a sensatez e dignidade ao ponto de querer varrer a sujidade para debaixo do tapete.
Nem todas as histórias seguem o mesmo fio condutor, nem todos os adúlteros se encontram em debate acérrimo entre o certo e o errado, entre o enlevo sexual e o respeito pelo cônjuge. Embora Connie tenha sido infiel, debate-se numa luta titânica, que traz uma derrota inglória para o respeitoso esposo (Richard Gere), mas que demonstra restos de alguma moralidade. Nem todos os comportamentos adúlteros se comprometem com esta linha condutora. Há os que trapaceiam sem rodeios, que chasqueiam e competem com uma gata no cio, com grandes probabilidades de lhes ganhar com honras de medalha de ouro.
Há dias vi um fulano, um homenzinho de estatura ridícula, de seus quarenta e poucos anos, que conheço como pai e esposo, senhor dono de estabelecimento comercial, enrolado com uma senhora de poucas maneiras e trejeitos de meretriz de fraca categoria. Pois é claro que toda a gente conheceu o indivíduo, todos lhe lançaram o olhar inquisidor - embora possam cometer os mesmos deslizes sem grande combate com os escrúpulos. Aqui não me parece, pois, haver qualquer resquício de dignidade, alguma luta titânica interior entre o bem e o mal. Vi um homem de índole fraca, a faltar ao respeito à família, a tudo o que nela se encerra e a escarnecer a sua própria (falta) de dignidade.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Be careful what you wish for.

Todos nós achamos, de forma absolutamente resoluta, que sabemos o que é vantajoso para nós, quem queremos ao nosso lado, que demónios devemos expurgar. Se pensarmos bem a respeito, percebemos que há pouquíssimas coisas que conseguimos controlar e o que desejamos é um gritar mais profundo que pode sempre ficar reservado para uma realidade paralela. Quando o que almejamos se torna realidade, é possível sentir o consolo imediato de uma tarefa acabada, de um ciclo fechado ou de uma volta em aberto. Posto isso, parte-se do princípio que desejamos o que é bom, o que nos trará vantagens. Pois desengane-se quem assim pensa. Pode acontecer que o perigo esteja naquilo que desejamos e quando se concretiza a demanda, sentir-se um vazio interior sem precedentes. O problema é que raramente há volta a dar e será sempre muito difícil voltar atrás, tentar consertar o que não tem mais remédio. Por isso, já Henry Selick nos falou, através do excelente Coraline, com um traço infantil e uma pitada de ingenuidade, be careful what you wish for, porque pode realizar-se.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Saber envelhecer com beleza.


Jéssica Lange, com a bela idade de 64 anos continua a
conseguir uma imagem bem mais interessante do que
boa parte das jovens da geração atual.
Sempre tive a firme convicção que a verdadeira beleza permanece e, embora mutável, é perfeitamente possível de ser apreciada em todas as idades. Pois que achamos uma criança bonita e graciosa assim como gabamos a pele de porcelana de uma senhora de idade avançada, com a mesma simpatia.
A idade é um selo de garantia de qualidade em ambos os sexos. Ou bem que somos belos e assim permanecemos, com as protuberâncias naturais dos diferentes ciclos, ou bem que somos apanhados pelo descalabro que nenhuma maquilhagem nem roupa de grande qualidade conseguem disfarçar. Por isso que prezo, acima de tudo, o cultivar intelectual ao mesmo nível que aprecio um bom casaco e com a mesma parcimónia com que cuido da minha pele todos os dias. A beleza num todo que se espelha, como é natural, em todo o esplendor, se os genes ajudarem, nas nossas formas, no rosto, nos cabelos.
Fico satisfeita quando vejo, efetivamente, uma senhora bem cuidada, bem falante, de traços finos e maneiras requintadas. No mês em que estreia a 3ª temporada da série American Horror Story, que sigo com entusiasmo - aqui me confesso -, não poderia deixar de escrever sobre uma dama de verdadeira beleza e sobriedade: Jessica Lange. Pele alva, compleição fantástica, bonitos cabelos loiros e um corpo que continua escultural, apesar de já ser sexagenária, fazem dela um verdadeiro ícone de maturidade inteligente. Consegue estar igualmente graciosa hoje como em 1976, em King Kong, na pele de Dwan, que encantou o gorila imortal do cinema (percebemos todos porquê).
 Em Big Fish (2003), aparece com bonitos caracóis dourados, envergando vestidos de acentuada elegância intemporal. Uma verdadeira visão do Éden no cinema.


Jessica Lange no filme O Cabo do Medo (1991), de .


American Horror Story - The Coven (2013).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Questões de amor.



"Luís de Camões, em sua existência anedótica, tem razão em maldizer das funestas estrelas que lhe frustraram os sonhos de amoroso, as ambições de soldado, as comodidades de funcionário, e, também, em certa medida, os triunfos de poeta; mas, se pudesse prevê-lo, quanta razão para ser grato às estrelas propícias que à sua vida essencial condicionaram ser ainda hoje o poeta mais vivo de Portugal."
Hernâni Cidade no Prefácio de Luís de Camões, Obras Completas, Vol. I
Tinha 14 anos quando a exemplar professora de Língua Portuguesa me falou de Camões. Contou, com uma paixão que nasce connosco, nas entrelinhas a sua vida, os desamores, a fortuna e o fado que o acolheu até o último suspiro.
Certo dia, pediu-nos para nos sentarmos em silêncio, escureceu a sala, ligou um televisor gigantesco e poeirento, e vimos Camões, ano de edição de 46, com o belíssimo António Vilar no papel do "falcão que perdeu a pena".
A partir desse dia, conheci uma paixão platónica pela sua excelência, pela febre dos seus poemas, não me referindo apenas às suas peças e à imortalidade de Os Lusíadas.
Ferido na sua angústia de poeta, que sente não só na alma como lhe ardem as mãos sob o mandamento único de expurgarem a sua dor, Camões compreendeu, de forma exímia, que o amor é algo que mata, que fere, que dilacera, mas do qual não se pode fugir. Por tudo isso, ainda hoje o amo como há treze anos.
"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


Luís de Camões

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A condessa malvada ou uma tramóia muito bem elaborada?

    Julie Delpy em The Countess
Já lá vai um bom tempo desde que vi o The Countess (2009), de Julie Delpy. O trama passa-se na Hungria sombria do séc. XVII, e centra-se na personagem de de Erzsébet Báthory, uma das mulheres mais ricas do seu país, a quem o Rei húngaro, Matias II, devia avultadas quantias de dinheiro e que fica viúva, por tormentas da guerra contra as iniciativas turcas, demasiado cedo.
Foquemo-nos no filme e temos, realmente, a figura de uma mulher das trevas, que se banhava em sangue de virgens para fazer perdurar a sua inegável beleza através da receita da juventude. Em Erzsébet é possível vislumbrar uma paixão febril por um nobre substancialmente mais jovem que lhe destroça o coração quando é obrigado a casar com uma outra mulher, de dezassete anos. Por vezes, o amor torna-nos miseráveis e maquiavélicos. Talvez tenha despoletado uma patologia sanguinária na condessa húngara, que abre a sangue frio, uma ferida no seio esquerdo para guardar, para a eternidade, junto do seu coração, irremediavelmente perdido de amor, uma mecha de cabelo do jovem Thurzo. É tudo isso de uma lugubridade tão fria, de uma tristeza cortante, que seria impossível não criar laços com Erzsébet.
O final da senhora, talvez levada sob uma tramoia ordinária de eventos que a ela lhe foram alheios, sob o auspício da usurpação da sua elevada riqueza, teria sido o confinar acutilante dentro de quatro paredes sombrias, sem resquícios de sol para lhe aquecer as faces moídas pelas choros constantes. Diz-se que mordeu o próprio pulso e sentenciou-se assim, de forma tão fatalista, à morte.


Julgamento faccioso?
"No julgamento de Isabel, não foram apresentadas provas sobre as torturas e mortes, baseando-se toda a acusação no relato de testemunhas. Foi encontrado um diário no quarto da condessa, no qual estavam registrados os nomes de cada vítima de Báthory com sua própria letra. Após sua morte, os registros de seus julgamentos foram lacrados, porque a revelação de suas atividades constituiriam um escândalo para a comunidade húngara reinante. O rei húngaro Matias II proibiu que se mencionasse seu nome nos círculos sociais."

"Não foi senão cem anos mais tarde que um padre jesuíta, László Turoczy, localizou alguns documentos originais do julgamento e recolheu histórias que circulavam entre os habitantes de Čachtice. Turoczy incluiu um relato de sua vida no livro que escreveu sobre a história da Hungria. Seu livro sugeria a possibilidade de 'Isabel' ter-se banhado em sangue. Publicado no ano de 1720, o livro surgiu durante uma onda de interesse pelo vampirismo na Europa oriental. Assim começou a espalhar-se o mito de que 'Isabel' eventualmente bebia e se banhava no sangue das meninas que matava."*
 * Informação retirada daqui.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Calúnia

 

Maryl Streep e Amy Adams, em Doubt.
Em 2008, altura do lançamento do The Doubt,  de John Patrick Shanley, decidi-me por ver o filme - um dos melhores até à data. Do seguimento do trama até ao final, nada tenho de extraordinário a apontar. O que nunca consegui esquecer, nas palavras de , cuja personagem foi alvo de uma perseguição cerrada, foi um ensinamento bíblico de que "se alguém subir ao topo de um alto monte com um travesseiro de penas, e soltar as penas ao vento, será possível recolher essas mesmas penas, uma semana depois? Não. O vento tê-las-á espalhado por quilômetros de distância, umas para a direita, outras para a esquerda, para trás, para a frente. Seria impossível recuperá-las. Trata-se de um mal irreparável. Assim são os boatos."
Uma vez iniciada a traiçoeira arte de espalhar um boato ou criar uma calúnia, nem todos os Santos vos poderão valer.
Na lindíssima Calúnia de Apeles, de Botticelli, cuja composição bebeu inspiração numa pintura perdida de Apeles, um célebre pintor grego da Antiguidade, aborda-se uma temática semelhante. Dela temos conhecimento através de Luciano de Samósata, nos seus Diálogos.
 
 
Segundo Luciano, o pintor Antífilo, bem menos dotado do que o seu colega Apeles, acusara o último de ter participado numa revolta dirigida contra o rei Ptolomeu IV, na corte onde estavam empregados os dois pintores. Inocente, Apeles foi feito prisioneiro até um dos verdadeiros mentores da revolta ter provado a sua inocência. Ptolomeu reabilitou o pintor, entregando-lhe Antífilo como escravo.
Anos mais tarde, levado pela pintura de Apeles, Botticelli haveria de pintar a Calúnia homónima.
À direita, numa sala aberta decorada com baixos-relevos e esculturas, o rei está sentado num trono. Ao seu lado, vemos as personagens alegóricas da Suspeita e da Ignorância que lhe sopram aos ouvidos de burro, que se devem interpretar como símbolo da sua tolice e falta de reflexão. Os seus olhos estão baixos, de maneira que não pode ver o que se passa; às cegas, ele estende a mão para a frente e encontra a personificação da Inveja. Vestida de preto, fixa o rei com um olhar penetrante e estende-lhe um braço, que acaba numa mão de comprimento anormal, num gesto rude cheio de agressividade. Da mão direita ele saca a Calúnia, ela própria portadora de uma tocha na mão direita, como símbolo das mentiras que espalha, enquanto da esquerda puxa a sua vítima pelos cabelos, um adolescente quase nu. A sua inocência está simbolizada pela sua nudez. Ele une, em vão,  as mãos para suplicar que o libertem. Atrás da Calúnia, a Perfídia e a Fraude estão ocupadas a entrançar os cabelos da sua senhora, a atá-los com um laço branco e espalhar rosas sobre a cabeça e os ombros. Por baixo da aparência enganadora das jovens e belas mulheres, utilizam fraudulentamente os atributos de pureza e inocência para com eles decorar as mentiras da Calúnia. A uma certa distância, sob a aparência de uma velha vestida com roupas pretas em farrapos, está o Arrependimento que se vira, com uma cara em que a boca adquire uma amarga contração, para a última personagem feminina no extremo da composição, a Verdade. Na sua nudez, de uma beleza perfeita, a Verdade faz um sinal com o dedo indicador da mão direita apontada para o alto, em direção aos poderes de que devemos esperar o último juízo sobre a mentira e a verdade. Sem se preocupar com o que os outros fazem, todos virados para o rei, e logo totalmente isolada deles, ela manifesta assim a sua constância incorruptível. Junta a sua nudez à do jovem inocente, enquanto as outras personagens disfarçam com roupas o seu verdadeiro ser. A Inveja e o Arrependimento cercam a Calúnia juntamente com as suas companheiras.