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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E é isso, olhe-se em frente, apesar da tormenta.

Sodom's destruction; Lot and daughters escape;  mosaicos de Monreale Cathedral


Então o Senhor fez chover enxofre e fogo, do Senhor desde os céus, sobre Sodoma;
E destruiu aquelas cidades e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra.

E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal (Gênesis 19:24-26).


Se vos parecer que cai uma tempestade valente, fujam, abriguem-se e deixem correr as águas, porque retomarão o seu curso e estarão a salvo. Não façam como a esposa de Ló, que a mordaz curiosidade transformou em sal. Às vezes, é preciso limpar a cabeça, fazer valer a disciplina, a sensibilidade e bom senso, e, como Ben Howard canta, There'll be oats in the water, There'll be birds on the ground, There'll be things you never asked her, Oh, how they tear at you now; Go your way I'll take the long way 'round, I'll find my own way down, As I should.


domingo, 15 de dezembro de 2013

I see fire.


Se em boa verdade ambos os filmes da saga The Hobbit não fazem jus à excelência de Tolkien e ao trabalho dirigido por Peter Jackson já lá vão mais de dez anos, com a imortal trilogia The Lord of The Rings, Howard Shore, o senhor por detrás da magnífica banda sonora, continua a trabalhar com excelência. As músicas que acompanham os créditos - para além da banda sonora - demonstram sempre a sua magistralidade de forma exímia. Into The West talvez tenha sido o melhor trabalho - juntando-se a voz de Annie Lennox -, mas I See Fire, muito mais fresca, de encontro a um paradigma diferente, atingindo um público também ele distinto, embora não se lhe chegue aos calcanhares, faz o seu trabalho. Ed Sheeran e a sua juvialidade atingem um patamar menos ambicioso, mas igualmente bem explorado. 

Ed Sheeran - I see fire


Annie Lennox - Into The West 



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma questão mais do que científica.

Já não me lembro que idade tinha quando A Rush of  Blood to the Head foi editado, mas ainda era agraciada pela juventude inocente. Costumava sair com as minhas amigas, no carro de uma delas, sempre a ouvir o álbum, que, na altura, me parecera magistral. Ainda hoje o é, embora os Coldplay tenham desistido da sua própria linha condutora. Evoluções e retrocessos à parte, The Scientist é das músicas mais melancólicas que me lembro de ouvir no novo milénio.

"Come up to meet you, tell you I'm sorry.
You don't know how lovely you are
I had to find you, tell you I need you
And tell you I set you apart
Tell me your secrets, and ask me your questions
Oh let's go back to the start
Running in circles, chasing in tails
Heads on a silence apart

Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start..."
Busca a possibilidade de voltar ao começo, um paradoxo tão frágil quanto atrevido. Será que alguma vez poderemos fazer o tempo girar em nosso proveito e take us back to the start?
São poemas perigosos que germinam na mente quando está fraca e dilacerada. Nada pode voltar ao estado inicial, sendo a vida como A Divina Comédia de Dante, cheia de círculos entre o Paraíso, o Purgatório e o Inferno. Deambulamos por lá todos e sobrevivemos. Aqueles que se deixam por lá ficar, como cantam os Smiths, na magistral Asleep, "Sing me to sleep, And then leave me alone, Don't try to wake me in the morning, 'Cause I will be gone, Don't feel bad for me, I want you to know, Deep in the cell of my heart, I will feel so glad to go."

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Bedshaped



Não sei precisar há quantos anos - atendendo à minha ainda juventude não mais de três ou quatro -, ao regressar a casa, na presença do homem que amava à época, deparei-me com um senhor, cujo nome, perdoem-me a rudeza, não me recordo. Era um senhor simpático, aprazível, tinha por hábito cumprimentar-me com maneiras dóceis. Quando se ria, ria-se para ele, sozinho nos seus pensamentos, perdido no emaranhar das suas emoções pessoais.  Sabia-nos todos espelhos. Na noite que vos relato, encontramo-lo estendido no chão de um passeio sujo, com as calças molhadas da sua própria urina. Um constrangimento humano acercou-se de mim. Ajudámo-lo a recompor-se e acompanhamos o homem do sorriso vago, em condições vexantes, com um odor nauseabundo não só a álcool, fluidos corporais, mas também a humilhação, a uma vida de miséria pretendida, a escolhas dilacerantes.  
Vivia num quarto sufocante, atolado nas suas recordações longínquas. Vi, de soslaio, uma fotografia amarelecida, mas tratada com cuidados que lhe careciam até nas coisas mais simples do seu quotidiano. Era uma família. Uma mulher, bem vestida, com maneiras de senhora fina, umas crianças e um homem que, apesar de beijado pela juventude farta, ainda se sabia que estava naquele ser alcoolizado que já dormia na cama imunda.
Uns dias mais tarde, o senhor do sorriso vago, mas dócil, morreu. Nunca soube em que circunstâncias, com que dores de alma, com que receios, com que amarguras. Morreu. É o fim. Dele ficaram as pessoas da foto enegrecida, uns quantos indivíduos com quem travou longas conversas filosóficas de café e fiquei eu, que me lembro, não raras vezes, da tristeza do seu quarto e da proteção infantil com que cultivava a foto da sua família.

Ventos de mudança.




Na voz de Morrissey, com o seu tom íntimo e amendoado, Please, Please, Please, Let Me Get What I Want, adquire outra magnitude. Ventos de mudança processam-se quando não os esperamos, quando precisamos, efetivamente, de paz, que alguém aprenda a cuidar de nós, embora seja tarefa que não se deve deixar por mãos alheias sob pena de, quando a fatalidade se der, estarmos sozinhos.
Good times for a change
See, the luck I've had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time

Haven't had a dream in a long time
See, the life I've had
Can make a good man bad

So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time
- The Smiths


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Fake plastic trees.

A solidão mói, come as entranhas do ser mais cético e mais amargo. Não vale a pena ultrajar os sentidos, conferindo um caráter pequeno ao sentimento profundo de solidão. Embora dependa da forma como cada um de nós se posiciona no mundo, atinge-nos a todos, em determinado curso da vida. Não queiramos, pois, fazer disto uma epidemia do séc. XXI, todavia, manipular os sentidos em prol de indiferença, vontades dúbias, palavras plásticas e sentimentos também eles tão pequenos não é solução e atira-nos, das duas uma, ou para o patamar mais grosseiro ou para uma lugubridade sem precedentes.
Não andaremos todos à procura de vivências plásticas e que se quebram em pedaços ao mínimo sobressalto?
"Her green plastic watering can
For her fake Chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself" - Fake plastic trees - Radiohead
E pode-se passar toda uma vida com gente assim e sentirmo-nos, eternamente, sós.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Há horas destas.

Existem dias malfadados, trambiqueiros, que nos puxam a perder a compostura, que nos seduzem para que não sejamos sempre tão polidos, tão pragmáticos. A boa educação e as boas maneiras são regra indispensável para  evitar trair gestos e atitudes nas quais acreditamos. Embora saibamos que nem sempre a cabeça reflete racionalismo suficiente para nos sentarmos por longos minutos, contarmos até 100 e respirar ar da serra, há limites que não se podem ultrapassar de forma alguma. Quando ultrapassados, trazem vergonha, humilhação e desmoralizam o valor social.
Bem que me apetece deitar tudo cá para fora, abafar os bons costumes e a elegância por algumas horas e baixar sobre mim uma senhora sem educação, violenta e com escrúpulos dúbios. Porém, é do conhecimento de todos, que isso não abona a favor de nenhuma alminha. E uma senhora deve medir o que diz, ser regrada na hora de colocar uma discussão em cima da mesa. Se se der o caso de o mal estar feito, pois então há que se munir de coragem e astúcia e ser elegante nas desculpas, acreditando firmemente, que não é comportamento que se repita. Porque todos somos dados a cheliques, mas até esses têm limites. E se não estamos bem, podemos sempre, parafraseando Variações, tomar o comprimido.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ainda se morre por amor?


Apesar da eminente tristeza, há sempre algo de poético na morte. Para quem não é conhecedor, Felix Mendelssohn Bartholdy, que se supõe ter-se suicidado, fê-lo, presumidamente, por amor. Ou pelo desvelo não correspondido. Histórias são facilmente montadas em cima de vidas extraordinárias ou génios imortais, é certo. Não me é, no entanto, mais fácil não sentir um honesto desconsolo por tamanho prodígio ter posto um fim à sua vida. Seriam todos eles miseráveis de infelicidade e não seria isso que desencadeava tão belas obras e o seguimento da soturnidade para composições como  a Op. 64, Concerto para violino em mi menor (1844) e a imortal Sonho de uma Noite de Verão? Na verdade, nunca saberemos. Mas enternece-me saber-lhe tamanha paixão.
Muito mais tarde, haveriam de cometer a indelicadeza de lhe conotarem as obras com algum  kitsch religioso - lembre-se a Marcha Nupcial, que ainda hoje toca na celebração dos matrimónios. Pessoalmente, considero magistral todo o requinte de Mendelssohn. Sabê-lo tão febril nas suas convicções amorosas, rouba suspiros de qualquer mulher (deixemos a racionalidade de lado durante breves segundos). Foi trágico e insensato a amar, tal como foi genial a criar música.