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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Jay Gatsby, um homem ímpar.

 
Leonardo DiCaprio em The Great Gatsby, de Baz Luhrmann.

A foto da semana, aqui no blog - talvez não tenham notado -, pertence a uma das mais belas cenas do cinema dos últimos tempos. Trata-se de DiCaprio, com o seu ar imperial nórdico, vestido como um cavalheiro, ligeiramente excêntrico, rodeado de flores brancas, impaciente, com uma expressão de angústia que haveria de ficar eternizada para as gerações que virão. Sou, inegavelmente, fã do seu trabalho e, por norma, nunca decepciona. Soube desligar-se com mestria do imberbe Jack Dawson de Titanic e talhou a sua carreira, deixando para trás aquela etiqueta desmesurada de sex symbol que qualquer senhor de bom gosto abomina e repele com veemência. 




Em The Great Gatsby, baseado no livro homónimo de um dos maiores nomes da literatura do século passado, Scott Fitzgerald, interpreta Jay Gatsby, um homem cuja riqueza material cria um interessante paradoxo com a sua espiritualidade. Embora um self made man, soube absorver os ensinamentos, a educação de esmero, a cordialidade e toda a sumptuosidade que um homem criado em berço de ouro deveria ter a obrigação de possuir e que tantas vezes refuta em nome da ordinarice, e da sua torpe elasticidade moral. 
Amava incondicionalmente uma mulher, cujo desvelo não lhe seria correspondido da mesma forma. Talvez a tenha amado como apenas se ama em filmes ou em grandes romances literários, mas foi a imagem de um amor puro, despretensioso que soube, como a música diz, deformar tudo ao seu jeito, para que parecesse bonito. E em Jay Gatsby tudo parece belo e magestoso. 


terça-feira, 3 de março de 2015

Traços de personalidade fastidiosa: o discurso da pena.


Recordo, imensas vezes, dos tempos de miúda, quando vinha com a minha mãe, a pé pela aldeia, algumas senhoras mais velhas, com um semblante pesado e medíocre, dialogarem um discurso de loucos, depois de concretizado o cumprimento inicial do "então, como tem passado?"
- Ai menina, cá se anda. Tenho andado muito mal da minha cabeça. Hoje até acordei tonta. Sabe, isto são os nervos. Uma pessoa chega a velha e vê os que gosta a morrerem, é o que é. 
E um rol de queixumes que me maçavam. A minha mãe, sob um impulso humano, cria que havia alguma obrigação de ouvir estas frases deslavadas e lá lhes acalmava os nervos com uma boa hora de conversa fiada e alguma pancadinha nos ombros. Eu, normalmente, recostava-me num muro qualquer, sentava-me e ouvia aquela conversa de adultos, sem piar. 
Quando cheguei à idade do discernimento, lá fui comprovando que, efetivamente, há gente assim, que só me parece estar bem a desfiar os novelos das angústias sobre a primeira alma que lhes apareça pela frente. 
Momentos menos bons, infelizmente, todos os temos. Saber cuidar deles com elegância e alguma sensatez é que nem todos aprenderam. 
Ainda hoje, se for à aldeia onde cresci, se a sorte me apresentar perante uma antiga conhecida, lá terei que emprestar uns bons 20 minutos ao fastidioso discurso da pena própria: Coitadinha de mim que isto e que aquilo; que me dói aqui; que o meu marido é assado ou cozido; que os meus filhos, que até estão muito bem de vida, estão longe, coitadinhos... 
O caso adensa-se quando acontece com gente de fresca idade, com capacidade intelectual para pensar um pouco mais sobre o assunto e perceber que andar a gritar pelo mundo que a vida até nem corre como queremos, é uma tolice. 
De vez em quando, não há ninguém cuja confiança não seja abalada. Faz parte da vida. Desabafar com uma amiga ou familiar de confiança, é ótimo, mas não pode ser a base dessas relações. Falar sempre sobre os aspectos negativos da sua vivência, não traz boas energias, consome as forças e só convida ainda mais à angústia. Se o assunto não se resolve, das duas uma: ou é caso de médico ou então é mesmo caso de pouco juízo. 
Algumas religiões acreditam firmemente que falar sempre de um assunto ruim, traz má sorte, que o chama à nossa presença por mais tempo. Crenças à parte, não é preciso ser muito expedito para perceber que há alguma verdade nisso. Ou então, se houver necessidade de se simplificar, como se diz por aí: mexer na porcaria só faz com que cheire ainda pior. 


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A pregar em vão.

Doris Day
Uma mulher realmente tem classe quando rejeita que um animal morto seja colocado sobre os seus ombros. Só assim será realmente bela. (Doris Day)

Não me canso de ser acérrima defensora de alguma sensibilidade e bom senso. Bem sei que nós mulheres temos deveres e virtudes que não estão ao alcance dos homens, por muito que os tempos mudem, as mentalidades evoluam. Uma mulher será sempre, inevitavelmente, um ser mais belo, mais sensível. Pedir-se-á muito mais de uma senhora do que de um cavalheiro. No entanto, não confundamos as coisas. Lá porque uma mulher, para além de ser uma profissional respeitável, dona da educação e da razão, que por vezes, fragilmente, dá lugar às questões do coração, não quer dizer que não deva ser bela, num sentido que nada tem a ver com frivolidades - e com isto mais profundamente me refiro não às formas físicas, mas à inteligência nos modos, na maneira de vestir, no conhecimento que têm do seu biótipo, dos seus pontos fortes e das suas fragilidades. 
O conceito de beleza, como já algumas vezes referi, vai para além das formas físicas, é aquilo que transparece, algo que vem de dentro para fora, é um cultivar da mente que se denota na delicadeza dos gestos e atitudes, na maneira como vestimos, como nos penteamos, como queremos que o mundo nos veja. O que vestimos será sempre o espelho do que almejamos para a nossa vida. Por muito que muitas senhoras feministas desenfreadas o contradigam. 
Kate Moss envergando um casaco de pêlo. 
Quando vejo publicações de moda fazerem vénias desmedidas a toilettes como a de Kate Moss, confesso que fico com os nervos em franja. Se bem se lembram de Jayne Meadows, senhora belíssima, inteligente e perspicaz, uma mulher à frente do seu tempo, que nos ensinou - ou deveria, para as mais distraídas - que de uma mulher espera-se, acima de tudo, uma atitude delicada. Usar peles vai contra todo o conceito de fraternidade, amor pelo próximo, respeito pela mais pequena forma de vida. Costuma-se dizer que se queremos viver pacificamente, devemos adotar o mantra vive e deixa viver. Nunca, por mais que senhoras de índole pusilânime o registem nos meios de comunicação e criem verdadeiras seitas da moda, matar será uma questão de estilo e elegância. Claro está que não me parece, atendendo às atitudes da senhora Moss, que abunde muito discernimento e inteligência, mas seria pedir demais se se esperasse alguma sensibilidade? 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Beleza e sensibilidade de Jayne Meadows.


"I feel very sorry for women who continue to purchase real fur coats. They are lacking in a woman's most important requisites, heart and sensitivity."

Sempre acreditei que a uma mulher cabe a sensibilidade acima da razão; um coração forte e íntimo, acima dos caprichos femininos. Para além da inegável beleza de Jayne, nela existe, hoje com a bonita idade de 94 anos, a mais nobre das formações de caráter: o amor pelo próximo, sem reservas, sem traços de paradoxalidade. Tratar um ser vivo com total ausência de nobreza é para algozes, gente rude e rasteira, que não entende a magistralidade de toda a sua existência. Ver os entendidos de moda e pseudo personal stylists gabarem a exuberância de casacos de pêlo verdadeiro, causa-me verdadeira náusea moral. Saber que um animal, puro e desprotegido, carrega o semblante da morte para conceber caprichos de trágicos fins, não é digno de se ser tolerado por nenhum homem, muito menos por uma mulher, que deveria ser o mais sensível dos sexos, para poder contribuir com emotividade e modéstia ao génio masculino. 


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Saber envelhecer com beleza.


Jéssica Lange, com a bela idade de 64 anos continua a
conseguir uma imagem bem mais interessante do que
boa parte das jovens da geração atual.
Sempre tive a firme convicção que a verdadeira beleza permanece e, embora mutável, é perfeitamente possível de ser apreciada em todas as idades. Pois que achamos uma criança bonita e graciosa assim como gabamos a pele de porcelana de uma senhora de idade avançada, com a mesma simpatia.
A idade é um selo de garantia de qualidade em ambos os sexos. Ou bem que somos belos e assim permanecemos, com as protuberâncias naturais dos diferentes ciclos, ou bem que somos apanhados pelo descalabro que nenhuma maquilhagem nem roupa de grande qualidade conseguem disfarçar. Por isso que prezo, acima de tudo, o cultivar intelectual ao mesmo nível que aprecio um bom casaco e com a mesma parcimónia com que cuido da minha pele todos os dias. A beleza num todo que se espelha, como é natural, em todo o esplendor, se os genes ajudarem, nas nossas formas, no rosto, nos cabelos.
Fico satisfeita quando vejo, efetivamente, uma senhora bem cuidada, bem falante, de traços finos e maneiras requintadas. No mês em que estreia a 3ª temporada da série American Horror Story, que sigo com entusiasmo - aqui me confesso -, não poderia deixar de escrever sobre uma dama de verdadeira beleza e sobriedade: Jessica Lange. Pele alva, compleição fantástica, bonitos cabelos loiros e um corpo que continua escultural, apesar de já ser sexagenária, fazem dela um verdadeiro ícone de maturidade inteligente. Consegue estar igualmente graciosa hoje como em 1976, em King Kong, na pele de Dwan, que encantou o gorila imortal do cinema (percebemos todos porquê).
 Em Big Fish (2003), aparece com bonitos caracóis dourados, envergando vestidos de acentuada elegância intemporal. Uma verdadeira visão do Éden no cinema.


Jessica Lange no filme O Cabo do Medo (1991), de .


American Horror Story - The Coven (2013).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Rembrandt van Rijn


Autorretrato do pintor (1630)

Completaria hoje 407 anos um dos artistas de excelência, que nos deixou um espólio magnífico. Na Fundação Calouste Gulbenkian tive a fortuna de observar um dos seus quadros in loco. Só se percebe tal dimensão, observando-o por um longo período de tempo, todos os pormenores, a obscuridade das suas personagens, a mestria inata do génio holandês.


A Ronda Noturna por Rembrandt, em exposição no Rijksmuseum, Amsterdão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A condessa malvada ou uma tramóia muito bem elaborada?

    Julie Delpy em The Countess
Já lá vai um bom tempo desde que vi o The Countess (2009), de Julie Delpy. O trama passa-se na Hungria sombria do séc. XVII, e centra-se na personagem de de Erzsébet Báthory, uma das mulheres mais ricas do seu país, a quem o Rei húngaro, Matias II, devia avultadas quantias de dinheiro e que fica viúva, por tormentas da guerra contra as iniciativas turcas, demasiado cedo.
Foquemo-nos no filme e temos, realmente, a figura de uma mulher das trevas, que se banhava em sangue de virgens para fazer perdurar a sua inegável beleza através da receita da juventude. Em Erzsébet é possível vislumbrar uma paixão febril por um nobre substancialmente mais jovem que lhe destroça o coração quando é obrigado a casar com uma outra mulher, de dezassete anos. Por vezes, o amor torna-nos miseráveis e maquiavélicos. Talvez tenha despoletado uma patologia sanguinária na condessa húngara, que abre a sangue frio, uma ferida no seio esquerdo para guardar, para a eternidade, junto do seu coração, irremediavelmente perdido de amor, uma mecha de cabelo do jovem Thurzo. É tudo isso de uma lugubridade tão fria, de uma tristeza cortante, que seria impossível não criar laços com Erzsébet.
O final da senhora, talvez levada sob uma tramoia ordinária de eventos que a ela lhe foram alheios, sob o auspício da usurpação da sua elevada riqueza, teria sido o confinar acutilante dentro de quatro paredes sombrias, sem resquícios de sol para lhe aquecer as faces moídas pelas choros constantes. Diz-se que mordeu o próprio pulso e sentenciou-se assim, de forma tão fatalista, à morte.


Julgamento faccioso?
"No julgamento de Isabel, não foram apresentadas provas sobre as torturas e mortes, baseando-se toda a acusação no relato de testemunhas. Foi encontrado um diário no quarto da condessa, no qual estavam registrados os nomes de cada vítima de Báthory com sua própria letra. Após sua morte, os registros de seus julgamentos foram lacrados, porque a revelação de suas atividades constituiriam um escândalo para a comunidade húngara reinante. O rei húngaro Matias II proibiu que se mencionasse seu nome nos círculos sociais."

"Não foi senão cem anos mais tarde que um padre jesuíta, László Turoczy, localizou alguns documentos originais do julgamento e recolheu histórias que circulavam entre os habitantes de Čachtice. Turoczy incluiu um relato de sua vida no livro que escreveu sobre a história da Hungria. Seu livro sugeria a possibilidade de 'Isabel' ter-se banhado em sangue. Publicado no ano de 1720, o livro surgiu durante uma onda de interesse pelo vampirismo na Europa oriental. Assim começou a espalhar-se o mito de que 'Isabel' eventualmente bebia e se banhava no sangue das meninas que matava."*
 * Informação retirada daqui.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Ross Lovegrove



Quando a Natureza, o talento e a técnica de excelência se misturam, nascem as melhores obras. Deixem-se impressionar pelo design de primeira de Ross Lovegrove.




sexta-feira, 31 de maio de 2013

Tolstói vai tendo razão.

À medida que se vai amadurecendo - desengane-se quem julga que anda a par com a idade -, compreende-se melhor como o mundo está estruturado, como os vícios são alimentados, como pau que nasce torto, tarde ou nunca se endireita (e os seus múltiplos sentidos figurativos) e como as mensagens de alerta são intemporais.
Pois bem que já dizia Tolstói: "Pensa-se que o ladrão, o assassino, o espião, a prostituta, reconhecendo a sua profissão como má, têm vergonha dela. Na realidade, acontece precisamente o contrário. As pessoas que, pelos seus destinos e pelos seus pecados e erros, caíram numa certa situação, por mais incorreta que seja, formam geralmente para si mesmas uma noção de vida tal que lhes permite imaginar a sua situação como boa e respeitável. Para se considerarem neste ponto de vista, tais pessoas, por instinto, aderem a círculo humano em que se reconhece como correta a noção que formaram da vida e do seu lugar nela. Este facto espanta-nos quando se trata de ladrões que se gabam da sua habilidade, das prostitutas que se gabam da depravação, dos assassinos que se gabam da sua crueldade. E apenas nos espantamos porque o círculo, ou o ambiente, dessa gente é limitado e, antes de mais, porque estamos fora dele. Mas será que acontece o mesmo fenómeno entre ricaços que se vangloriam das suas fortunas, ou seja, da pilhagem, e dos potentados que se gabam do seu poder, ou seja, da arbitrariedade? Não vemos nessas pessoas a deturpação das noções de vida, do bem e do mal, que justifica a situação delas, apenas porque o círculo que adere a essas noções deturpadas é mais amplo e porque nós próprios fazemos parte dele." excerto retirado do romance Ressurreição de Lev Tólstoi.
Alimentam-se as máquinas, defraudam-se expectativas simples e humanas em prol da mesquinhez, da mediocridade, comummente, aceite.
Assim, caros leitores, aceita-se o trabalho infantil, aceitam-se os políticos miseráveis, aceita-se a crueldade gratuita contra os seres vivos, aceita-se a degradação ambiental e aceita-se que, mesmo lendo este trecho, amanhã façamos exatamente as mesmas coisas.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ainda se morre por amor?


Apesar da eminente tristeza, há sempre algo de poético na morte. Para quem não é conhecedor, Felix Mendelssohn Bartholdy, que se supõe ter-se suicidado, fê-lo, presumidamente, por amor. Ou pelo desvelo não correspondido. Histórias são facilmente montadas em cima de vidas extraordinárias ou génios imortais, é certo. Não me é, no entanto, mais fácil não sentir um honesto desconsolo por tamanho prodígio ter posto um fim à sua vida. Seriam todos eles miseráveis de infelicidade e não seria isso que desencadeava tão belas obras e o seguimento da soturnidade para composições como  a Op. 64, Concerto para violino em mi menor (1844) e a imortal Sonho de uma Noite de Verão? Na verdade, nunca saberemos. Mas enternece-me saber-lhe tamanha paixão.
Muito mais tarde, haveriam de cometer a indelicadeza de lhe conotarem as obras com algum  kitsch religioso - lembre-se a Marcha Nupcial, que ainda hoje toca na celebração dos matrimónios. Pessoalmente, considero magistral todo o requinte de Mendelssohn. Sabê-lo tão febril nas suas convicções amorosas, rouba suspiros de qualquer mulher (deixemos a racionalidade de lado durante breves segundos). Foi trágico e insensato a amar, tal como foi genial a criar música.